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Fotos Antigas

E se eu vos disser que, um dia, passou um comboio pela Avenida Luísa Todi?

E se eu vos disser que, um dia, passou um comboio pela Avenida Luísa Todi?

Hoje custa-me imaginar.

A Avenida Luísa Todi, com as suas árvores, os passeios, os cafés e o movimento de Setúbal, parece não ter nada a ver com uma linha de comboio. Mas há pouco mais de cem anos, a realidade era bem diferente.

Estamos em 1916, em plena Primeira Guerra Mundial.

Setúbal vivia também os efeitos de uma guerra que acontecia longe das nossas ruas, mas a posição estratégica da cidade e a defesa da barra do Sado tornavam necessário reforçar as estruturas militares existentes, nomeadamente na zona do Forte de São Filipe.

Era preciso transportar para lá enormes peças de artilharia e outro material militar.

E foi então que aconteceu algo que hoje parece quase impossível: construíram uma linha férrea provisória que atravessava a Avenida Luísa Todi.

Os carris vinham da zona das Fontainhas e seguiam pela avenida até à antiga Saúde, junto à Quinta da Saboaria.

Quando penso em Setúbal naquele tempo, custa imaginar a cena: pessoas a caminhar pela avenida, carros e carroças a circular e, no meio de tudo isso, carris de ferro por onde passava um comboio carregado de material de guerra.

Mas a viagem não terminava ali.

Depois de o comboio chegar à zona da Quinta da Saboaria, as pesadas peças de artilharia tinham ainda de continuar o caminho por terra. E era aí que entravam as juntas de bois, que, lentamente, puxavam aquele enorme peso em direcção às posições militares.

É uma imagem difícil de imaginar hoje: comboio, bois, artilharia e uma Avenida Luísa Todi muito diferente daquela que conhecemos.

E, naturalmente, nem todos acharam graça à novidade.

A linha causava transtornos à circulação e alterava profundamente o movimento da avenida. Na imprensa da época chegou mesmo a ser chamada “a serpente da Avenida”.

A solução era para ser temporária.

Quando terminou o transporte do material, no início de 1917, começaram as pressões para que os carris fossem retirados. A própria Câmara defendia que a linha fosse levantada, precisamente porque estava a prejudicar a circulação e a própria imagem da avenida.

E assim, pouco tempo depois, os carris desapareceram.

Hoje passo pela Avenida Luísa Todi e custa-me pensar que aquele chão já foi atravessado por um comboio.

Talvez seja isso que torna estas histórias tão bonitas.

Há uma Setúbal que já não existe, escondida por baixo daquela que conhecemos hoje. Uma Setúbal de comboios que já não passam, de edifícios que desapareceram, de ruas que mudaram e de histórias que ficaram esquecidas.

E esta é uma delas: a história do comboio que, por alguns meses, atravessou a Avenida Luísa Todi.

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